6 de dezembro de 2011

A EXCURSÃO DO AMÉRICA CARIOCA AO RIO DA PRATA - 1929

A repercussão do título de campeão carioca brilhantemente conquistado em 1928 não demorou a transpor as fronteiras do Brasil. Assim é que, em janeiro de 1929, chegou o honroso convite da Associação de Futebol da Argentina – AFA, para uma temporada de cinco jogos em gramados de países do Rio da Prata.

Os entraves eram enormes, mas o entusiasmo da gente americana – em especial de Lafaiete Gomes Ribeiro e Antônio Gomes de Avellar – logrou sobrepujar a todos. O resultado satisfatório dos entendimentos foi recebido em meio a intensa vibração.
A embaixada americana seguiu na tarde de 18 de fevereiro de 1929, a bordo do luxuoso navio holandês “Flandria”m cujo comandante gentilmente mandou içar a bandeira rubra no mastro principal do navio.

Sua composição era a seguinte: Chefe – Henrique Azevedo Alves; Tesoureiro – Mário Vieira; Diretor Técnico – Antônio Dias de Paiva; Árbitro – Artur de Morais e Castro; Subdiretor – Jaime Pereira Barcellos; Jornalista – Luís Vianna, do Correio da Manhã; Jogadores – Joel, Pennaforte, Hildegardo, Floriano, Walter, Sobral, Oswaldinho, Mário Pinto, Mineiro, Celso e Sílvio Pacheco. Como reforços, participaram da delegação os jogadores Feitiço, Siriri, Camarão e Evangelista, do Santos (SP), Grane, do Corinthians (SP), Espanhol, do Vasco da Gama (RJ) e Nilo, do Botafogo (RJ).
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É preciso que se diga que era habitual nessa época os clubes levarem reforços de outras equipes em suas excursões. O América sentiu a responsabilidade que lhe pesava como a primeira agremiação carioca a viajar para o estrangeiro, sobretudo para uma região onde o futebol havia atingido elevado nível técnico.
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A estréia foi no dia 24 de fevereiro, no campo do Sportivo Barracas. Contrariando o programa, colocaram diante do América o poderoso selecionado argentino formado – vale a pena citar – por Bossio, Omar e Paternoster; Arico Suárez, Volante e Evaristo; Peucelle, Haedo, Ferreyra, Cherro e Onzari.

O América jogou com Joel, Pennaforte e Hildegardo; Hermógenes, Floriano e Walter; Sobral, Camarão, Feitiço, Siriri e Evangelista. Os jogadores rubros lutaram bravamente, porém o selecionado local era estupendo e inquestionavelmente mais forte. A derrota era fatal e consumou-se em números contundentes: 6 x 1. Siriri marcou o único gol americano.
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Em automóveis, a comitiva partiu, em 3 de março, para La Plata, onde, nesse mesma tarde, seria disputada a segunda partida, contra o Estudiantes local, vice-campeão e uma das grandes forças do futebol argentino. A reabilitação do América foi parcialmente alcançada, pois obteve expressivo empate, por 1 x 1, gol de Nilo.

A equipe formou com a mesma defesa e o seguinte ataque: Siriri, Oswaldinho, Feitiço, Nilo e Evangelista. Dessa feita, os cronistas argentinos que haviam feito justas restrições aos americanos após o primeiro cotejo, não pouparam louvores aos jogadores do América, sobretudo a Oswaldinho e Nilo, que não haviam atuado na estréia.
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A terceira partida foi contra o Ferrocarril Oeste, a 6 de março, no campo do Vélez Sarsfield. Com o conjunto rendendo o que dele se esperava, o América não teve dificuldades em obter fácil vitória, 5 x 1, tentos de Oswaldinho (3), Feitiço e Nilo. Os heróis da esplêndida jornada foram Joel, Pennaforte e Espanhol; Hermógenes, Floriano e Walter; Siriri, Oswaldinho, Feitiço, Nilo e Celso.
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O respeito que o América passou a merecer fez com que se formasse em Buenos Aires um poderoso combinado, para enfrentá-lo a seguir. Foi a 9 de março, no campo do San Lorenzo. O América formou com Joel, Grane e Hildegardo; Hermógenes, Floriano e Walter; Siriri, Oswaldinho, Feitiço, Nilo e Celso. O resultado final foi novo empate por 1 x 1. Nilo fez o gol dos rubros, de cabeça.
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Apenas 24 horas mais tarde, o América jogou em Montevidéu, Uruguai, contra o Peñarol, campeão local e base da seleção que se tornaria campeã mundial em 1930. A viagem, de 12 horas, foi cansativa, mas não esgotou a resistência dos viajantes, que enfrentaram o poderoso adversário de igual para igual. O empate em um tento foi, por tudo isso, bastante significativo.

O time estava constituído por Joel, Grané e Espanhol; Hermógenes, Floriano e Walter; Siriri, Nilo, Feitiço, Mineiro e Celso. O tento americano foi marcado por Grane, de pênalti. Não é preciso dizer que os uruguaios custaram a se conformar com a penalidade máxima, um calço por trás, sofrido por Celso, quando faltavam quatro minutos para o encerramento do jogo.
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A despedida, contra a Seleção da Argentina, m revanche, a 15 de março, no campo do Barracas, foi tumultuada. O jogo transcorria violento e equilibrado, quando o árbitro argentino, em autêntica “patriotada”, inventa um pênalti a favor de seus “hermanos”. Os brasileiros protestaram e armou-se tremendo sururu. Afinal, depois de 25 minutos de paralisação, o jogo prosseguiu. Perdemos por 2 x 0, com Joel, Pennaforte e Espanhol; Hildegardo, Floriano e Walter; Siriri, Oswaldinho, Feitiço, Nilo e Celso.
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A despeito das duas derrotas sofridas, a campanha foi considerada excelente. A única equipe que venceu o América não fora outro senão o potente “scratch” argentino, contra quem o próprio selecionado brasileiro estaria sujeito a semelhante insucesso.
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A excursão serviu para estreitar os laços de fraterna amizade com os irmãos argentinos e uruguaios, de vez que as desavenças em campo morreram com o apito final do árbitro.
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Assim, convictos de que bem representaram o futebol brasileiro, os jogadores americanos voltaram, a 20 de março, satisfeitos e contentes, não poupando palavras de gratidão aos desportistas portenhos, que os cercaram das mais altas cortesias, durante a agradável temporada.

Pelo Conselho Administrativo foi lavrado em ata, na reunião de 18 de março de 1929, um “voto de grande satisfação”, pela brilhante atuação da embaixada, tendo o Conselho Deliberativo, por sua vez, em 19 de abril, aprovado “voto de louvor”, pela mesma razão.
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Com o propósito de manifestar seu reconhecimento ao prestimoso coirmão, o América programou um amistoso com o Santos, que foi realizado na cidade praiana, a 2 de maio desse mesmo ano, e terminou com a vitória dos rubros por 4 x 1.

Aos quatro jogadores santistas que defenderam o América durante a excursão, foi feita oferta de valiosas medalhas de ouro, prêmio estendido, pouco depois, a Nilo, a Grane e a Espanhol.

Fonte: Campos Sales, 118 – A História do América.

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